Velocidade de Hemossedimentação (VHS): O que é, Quando Deve Ser Solicitado e Sua Função no Diagnóstico e Monitoramento das Doenças Dermatológicas Inflamatórias e Autoimunes
O mundo da medicina laboratorial oferece uma vasta gama de ferramentas diagnósticas que, apesar de sua simplicidade técnica, fornecem informações cruciais sobre o estado de saúde de um paciente. Entre esses testes, destaca-se a Velocidade de Hemossedimentação (VHS), um exame de sangue de baixo custo e alta disponibilidade, amplamente utilizado como um marcador inespecífico, mas altamente sensível, da presença de inflamação ou infecção no organismo.
Apesar de não ser um teste exclusivo da Dermatologia, o VHS desempenha um papel importante na prática clínica do dermatologista, especialmente na investigação de doenças cutâneas que têm um componente inflamatório ou autoimune sistêmico.

O que é o Exame de VHS?
A sigla VHS significa Velocidade de Hemossedimentação, e, como o nome sugere, este exame mede a velocidade com que as hemácias (glóbulos vermelhos ou eritrócitos) se depositam no fundo de um tubo de ensaio, ao longo de um determinado período de tempo, geralmente uma hora. O resultado é expresso em milímetros por hora (mm/h).
Como o Teste Funciona: O Mecanismo da Sedimentação
O princípio por trás do VHS é a atração natural e a tendência das hemácias se agruparem e se separarem do plasma quando o sangue é mantido em repouso.
- Potencial Zeta Normal: Em condições normais, as hemácias possuem uma carga elétrica negativa em sua superfície, conhecida como potencial zeta. Essa carga faz com que elas se repelem mutuamente, permanecendo dispersas no plasma, o que resulta em uma taxa de sedimentação lenta e, portanto, um valor de VHS normal.
- Aumento da Inflamação (VHS Alto): Em situações de inflamação ou infecção (aguda ou crônica), o organismo aumenta a produção de proteínas de fase aguda no plasma sanguíneo. As principais são o fibrinogênio e as imunoglobulinas.
- Formação de Roleaux: Essas proteínas inflamatórias (positivamente carregadas) se ligam à superfície das hemácias (negativamente carregadas), neutralizando o potencial zeta de repulsão. Essa neutralização permite que os glóbulos vermelhos se aglomerem, formando pilhas que se assemelham a moedas, chamadas de roleaux.
- Sedimentação Acelerada: Os roleaux são mais pesados e densos que as hemácias individuais, o que faz com que se depositem no fundo do tubo muito mais rapidamente. Um valor de VHS elevado (> 20 mm/h, a depender do sexo e idade) é, portanto, um indicativo de que há um processo inflamatório ou infeccioso ativo no corpo.
É fundamental ressaltar que o VHS é um teste inespecífico. Ele indica a presença e, em certa medida, a intensidade de uma resposta inflamatória, mas não informa sobre a causa ou a localização desse processo. Por isso, a interpretação de um VHS alterado deve ser sempre feita em conjunto com a avaliação clínica do paciente e outros exames laboratoriais (como a Proteína C Reativa – PCR).
Quando o Exame de VHS Deve ser Solicitado?
O exame de VHS não é um teste de rastreio de rotina, mas sim um instrumento de investigação e monitoramento. Um médico pode solicitá-lo em diversas situações, incluindo:
1. Investigação de Sintomas Inespecíficos
Quando o paciente apresenta sinais e sintomas que sugerem um quadro inflamatório ou infeccioso, mas a causa não é clara, o VHS pode ser um ponto de partida. Tais sintomas podem incluir:
- Febre de origem desconhecida.
- Perda de peso inexplicada.
- Dores articulares ou musculares (artralgia/mialgia).
- Fadiga persistente.
- Anemias sem causa aparente.
2. Diagnóstico de Doenças Inflamatórias Crônicas
O VHS é classicamente usado no auxílio diagnóstico de condições sistêmicas, muitas das quais têm manifestações dermatológicas. Algumas das principais são:
- Doenças Reumáticas e Autoimunes: Lúpus Eritematoso Sistêmico (LES), Artrite Reumatoide (AR), Polimialgia Reumática, Arterite Temporal e Vasculites.
- Doenças Infecciosas Crônicas: Tuberculose, endocardite.
- Neoplasias: Certos tipos de câncer e doenças linfoproliferativas.
3. Monitoramento da Atividade da Doença
Esta é talvez a função mais valiosa do VHS. Em pacientes já diagnosticados com doenças crônicas que cursam com inflamação (como Lúpus ou Artrite), o VHS é solicitado regularmente para:
- Avaliar a Atividade da Doença: Um aumento súbito ou persistente pode indicar um “surto” ou reativação da condição.
- Monitorar a Resposta ao Tratamento: Uma queda significativa nos valores de VHS, após o início de uma terapia anti-inflamatória (como corticoides), sugere que o tratamento está sendo eficaz.

O Papel do VHS no Contexto das Doenças Dermatológicas
Muitas doenças de pele não têm apenas um impacto na derme e epiderme; elas são a “ponta do iceberg” de um processo inflamatório ou autoimune que afeta múltiplos órgãos. Nesses casos, a medição da inflamação sistêmica, como a proporcionada pelo VHS, torna-se essencial.
A. Doenças Autoimunes e do Tecido Conjuntivo
Doenças autoimunes que afetam a pele frequentemente elevam o VHS, sendo o exame um ótimo biomarcador para avaliar a gravidade da inflamação.
| Doença Dermatológica/Sistêmica | Implicação do VHS |
| Lúpus Eritematoso Sistêmico (LES) | O VHS elevado, juntamente com o FAN positivo e outros exames, apoia o diagnóstico e, principalmente, monitora a atividade lúpica, inclusive a cutânea. |
| Dermatomiosite | Utilizado para monitorar a atividade inflamatória muscular e cutânea. |
| Esclerose Sistêmica (Esclerodermia) | Pode estar elevado, correlacionando-se com a atividade da doença, especialmente em fases inflamatórias. |
B. Vasculites Cutâneas
As vasculites são inflamações da parede dos vasos sanguíneos que frequentemente se manifestam na pele (por exemplo, púrpura palpável, livedo reticular).
- Vasculites Sistêmicas: Condições como a Granulomatose com Poliangiite (anteriormente Doença de Wegener) ou a Poliarterite Nodosa sempre cursam com VHS muito elevado, indicando a gravidade da inflamação sistêmica.
- Vasculite de Hipersensibilidade (localizada): O VHS pode estar normal ou apenas ligeiramente elevado, dependendo da extensão da doença.
C. Doença de Behçet e Pioderma Gangrenoso
Essas duas condições são exemplos de doenças neutrofílicas da pele, caracterizadas por inflamação intensa.
- Pioderma Gangrenoso: Cursa com úlceras cutâneas destrutivas e, na maioria das vezes, está associado a uma doença subjacente (como doença inflamatória intestinal ou artrite). Um VHS significativamente alto é comum e ajuda a monitorar a resposta à imunossupressão.
- Doença de Behçet: Uma vasculite sistêmica que causa úlceras orais e genitais recorrentes, e lesões cutâneas variadas. O VHS é importante para avaliar a atividade sistêmica da doença.
D. Psoríase (Casos Graves)
Embora a Psoríase seja primariamente uma doença cutânea, em casos de doença grave e extensa (como psoríase eritrodérmica ou pustulosa generalizada), a inflamação sistêmica é intensa. O VHS e a Proteína C Reativa (PCR) podem se elevar drasticamente, refletindo a carga inflamatória imposta ao organismo e auxiliando na tomada de decisão sobre o uso de terapias sistêmicas.
O que Causa a Elevação do VHS e a Interpretação dos Resultados
É importante saber que o VHS é um biomarcador altamente sensível, mas que pode ser influenciado por diversos fatores não patológicos.
Fatores que Aumentam o VHS (Falsos Positivos)
A elevação do VHS pode ocorrer mesmo na ausência de uma doença inflamatória grave. Fatores a considerar incluem:
- Idade: O VHS tende a aumentar ligeiramente com a idade.
- Sexo Feminino: Mulheres geralmente têm valores um pouco mais altos que homens.
- Anemia: A redução da proporção de hemácias no sangue (hematócrito baixo) pode aumentar o VHS, pois há menos células para sedimentar.
- Gravidez: Aumenta naturalmente devido a alterações nas proteínas plasmáticas.
- Obesidade, Doença Renal e Diabetes.
Fatores que Diminuem o VHS (Falsos Negativos)
Em raras ocasiões, pode haver inflamação ativa com VHS normal ou baixo.
- Anemias Falciformes: O formato anormal das hemácias (pecilocitose) impede a formação dos roleaux, mantendo a sedimentação lenta.
- Policitemia: Excesso de hemácias que dificulta a sedimentação.
- Uso de Corticoides: Os corticoides são potentes anti-inflamatórios e podem normalizar o VHS, mesmo que a doença ainda esteja em atividade (mas sob controle terapêutico).
Valores de Referência (Aproximados)
Os valores de referência podem variar entre laboratórios, mas uma referência comum é:
- Homens (< 50 anos): < 15 mm/h
- Homens (> 50 anos): < 20 mm/h
- Mulheres (< 50 anos): < 20 mm/h
- Mulheres (> 50 anos): < 30 mm/h
Valores acima de 50 mm/h (elevação moderada) ou acima de 100 mm/h (elevação acentuada) são motivo de grande atenção médica, sugerindo processos inflamatórios, infecciosos ou neoplásicos significativos.

VHS vs. PCR: Qual a Diferença?
O VHS é frequentemente solicitado em conjunto com a Proteína C Reativa (PCR), outro marcador de inflamação.
A principal diferença reside na velocidade de resposta.
- O PCR aumenta e diminui muito mais rapidamente em resposta a um estímulo inflamatório. É um indicador de inflamação aguda e em tempo real.
- O VHS leva mais tempo para se elevar e, principalmente, leva mais tempo para voltar ao normal (pode levar semanas ou meses), sendo mais útil no monitoramento de doenças crônicas e na avaliação da eficácia do tratamento a longo prazo.
Em resumo, a PCR reflete o que aconteceu ontem, enquanto o VHS reflete um processo inflamatório persistente. O médico saberá qual dosar, ou se deve solicitar ambos, de acordo com o quadro clínico do paciente e a fase da doença.
Uma Ferramenta Inespecífica, Mas Indispensável
O exame de Velocidade de Hemossedimentação (VHS) é um teste laboratorial inespecífico, mas de imensa utilidade clínica. Sua principal função é atuar como um biomarcador de inflamação sistêmica, permitindo ao médico — incluindo o dermatologista — confirmar a presença de um processo inflamatório ou infeccioso e, crucialmente, monitorar a atividade da doença e a resposta à terapia.
Na Dermatologia, o VHS é essencial para investigar lesões cutâneas que podem ser manifestações de doenças sistêmicas autoimunes (como lúpus e vasculites), direcionando a investigação para o tratamento mais adequado. Ele é uma parte vital da “caixa de ferramentas” diagnósticas, permitindo uma abordagem mais completa e personalizada do paciente.
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